27/07/07

A importância da preguiça




















Preguiça é ver um avião no ar e ficar a sorrir distraído
da pressa que rasga o céu, algures num escritório da
cidade.
Ou deixar-se sonhar com ele num sono impertinente a
qualquer hora do dia ou da noite. Pode ser um minuto,
pode ser uma hora. Depende, para ser efectivamente
preguiça, do grau de inconsistência saudável como nos
entregamos a ela.
É a "marca de um espanto. De um desvio".
Mas preguiça faz parte de nós. Aliás a preguiça deveria
estar-nos no sangue como o oxigénio nos pulmões. Até por
uma questão de higiene psico-fisiológica. A sua ausência
poderá levar a um estado patológico com sintomas vários
que andam em torno do "stress", do "workoolismo" e doutros
termos de duvidosa raiz cultural.
Há quem diga, embora sem convicções que às vezes até com
medo, que tal patologia terá sido criada em laboratório.
Como a sida, a celulite e as vacas loucas.
Tal como estas, expande-se imperialisticamente nos países
mais desenvolvidos do Ocidente trabalhador e de consciência
tranquila. Mas inconsciente. Doentiamente inconsciente da
doença psicossomática que o afecta. Uma assustadora
percentagem da sua população não tem preguiça no sangue.
Ou apresenta índices perigosamente baixos.
Pessoalmente, penso que se deveriam fazer análises,
como se fazem testes da sida ou de "soprar no balão".
Os cidadãos detectados com tal enfermidade altamente
contagiosa deviam ser imediatamente conduzidos a
programas de tratamento que passassem por exemplo,
por estadias numa aldeia alentejana ou numa qualquer
ilha no Pacífico, desde que em paz,se fosse possível.
Apesar de só actualmente reconhecida oficialmente
pela comunidade médica, a importância da preguiça,
em latim otium, contrário de negotium, é estudada
por alguns humanos resistentes desde tempos ancestrais.
Foi especialmente retratada por poetas, pintores,
músicos e outros artistas,categorias que parecem
contar-se entre as mais resistentes ao perigoso vírus.
Mas não imunes. Nos "grupos de risco" encontram-se
economistas, gestores,jornalistas,homens de negócios,
praticamente todo o sector secundário e terciário,
mas também jovens e crianças. Parece
que o sexo feminino é factor geralmente agravante.

Nota introdutória de Joana Caspurro
in O Direito à Preguiça - Paul Lafargue © 2002, Campo das Letras

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