05/07/08

Olho de Deus ou Helix Nebula

As coisas que se descobrem no email. Mistura, salada de grelos e outras coisas.
Muitas mensagens para apagar e esquecer. Outras para sublinhar e ver.
Apenas porque nos surpreendem e nos deixam sem fala.


20/03/08

Porta

Não queria, mas a Barbearia esteve fechada desde Outubro. Por vezes sem querer a porta fecha-se pelo vento. Corrente de ar da indisponibilidade involuntária.

02/01/08

Miguel d'Alte

1954 - 2007





















Nasceu em Braga a 2 de Fevereiro de 1954.
Viveu em Moçambique de 1960 a 1972.

Morreu a 24 de Dezembro, atropelado por um
comboio quando atravessava a Linha do Norte
junto ao apeadeiro de Francelos, em Gaia

Queria um dia pintar na lua...




21/10/07

Passeio

O Outono começou de forma mais quente do que o habitual. Temperaturas mínimas e máximas superiores. Ventos de leste não esperados. Consequências da alta pressão. Domingos com mais gente do que o habitual nesta altura do ano. Desespero da mudança horária. Castanhas na berma do passeio ou na estrada? Estrada, como na anedota de uma polícia que não sabia como descrever. Passeio ou paçeio?

31/08/07

Escultura



















Fechei a loja "oficialmente" apenas durante alguns dias. Mas cá estou novamente. Não queria que ninguém batesse com a cara na porta. Apesar de não cortar cabelo e apenas utilizar a cabeça de cada um como matéria-prima para criar uma nova escultura...

As férias são provavelmente apenas uma questão mental...

27/07/07

A importância da preguiça




















Preguiça é ver um avião no ar e ficar a sorrir distraído
da pressa que rasga o céu, algures num escritório da
cidade.
Ou deixar-se sonhar com ele num sono impertinente a
qualquer hora do dia ou da noite. Pode ser um minuto,
pode ser uma hora. Depende, para ser efectivamente
preguiça, do grau de inconsistência saudável como nos
entregamos a ela.
É a "marca de um espanto. De um desvio".
Mas preguiça faz parte de nós. Aliás a preguiça deveria
estar-nos no sangue como o oxigénio nos pulmões. Até por
uma questão de higiene psico-fisiológica. A sua ausência
poderá levar a um estado patológico com sintomas vários
que andam em torno do "stress", do "workoolismo" e doutros
termos de duvidosa raiz cultural.
Há quem diga, embora sem convicções que às vezes até com
medo, que tal patologia terá sido criada em laboratório.
Como a sida, a celulite e as vacas loucas.
Tal como estas, expande-se imperialisticamente nos países
mais desenvolvidos do Ocidente trabalhador e de consciência
tranquila. Mas inconsciente. Doentiamente inconsciente da
doença psicossomática que o afecta. Uma assustadora
percentagem da sua população não tem preguiça no sangue.
Ou apresenta índices perigosamente baixos.
Pessoalmente, penso que se deveriam fazer análises,
como se fazem testes da sida ou de "soprar no balão".
Os cidadãos detectados com tal enfermidade altamente
contagiosa deviam ser imediatamente conduzidos a
programas de tratamento que passassem por exemplo,
por estadias numa aldeia alentejana ou numa qualquer
ilha no Pacífico, desde que em paz,se fosse possível.
Apesar de só actualmente reconhecida oficialmente
pela comunidade médica, a importância da preguiça,
em latim otium, contrário de negotium, é estudada
por alguns humanos resistentes desde tempos ancestrais.
Foi especialmente retratada por poetas, pintores,
músicos e outros artistas,categorias que parecem
contar-se entre as mais resistentes ao perigoso vírus.
Mas não imunes. Nos "grupos de risco" encontram-se
economistas, gestores,jornalistas,homens de negócios,
praticamente todo o sector secundário e terciário,
mas também jovens e crianças. Parece
que o sexo feminino é factor geralmente agravante.

Nota introdutória de Joana Caspurro
in O Direito à Preguiça - Paul Lafargue © 2002, Campo das Letras

21/07/07

Paixão Gomes

Existem histórias que se contam todos os dias e que são alegorias, ornadas de curvas inventadas, imorais ou próprias de conto de fada. Outras ultrapassam a própria existência e são mais verdadeiras que a própria vida. Nessas alturas a reportagem ultrapassa o fôlego e toda a energia do narrador, transforma-se em algo que lhe escapa...
O "obituário" desta sexta-feira 20.07.2007 no caderno P2 do Jornal "Público" do escritor Rui Cardoso Martins penso ser um destes casos.

Morte duma general
20.07.2007, Rui Cardoso Martins

O escritor Rui Cardoso Martins faz o obituário de Teresinha da Paixão Gomes, aliás Tito, um transexual que veio ao mundo ainda antes de "haver" transexualidade. Foi ele que cobriu para nós o julgamento em 1993
O general Tito, falecido há dias, sozinho, aos 74 anos, numa casa isolada do mundo com chapas de zinco, cruzou uma vez o olhar comigo, em 1993. Ele estava no seu blaser azul, as calças cinzentas engomadas, a gravata de seda, o cabelo platinado. É quase certo que eu ia mal vestido (jovem da imprensa escrita). Virou-se no banco dos réus, e olhou-me três segundos com curiosidade, como a um "parasita" nas suas costas. Era assim que ela chamava aos jornalistas, no Tribunal da Boa Hora.
O julgamento da "Generala". O mistério de "Teresinha da Paixão Gomes, aliás Tito da Paixão Gomes". O estranho burlão que "afinal era mulher". Que vivia com outra mulher sem que esta soubesse a verdade. Creio que estávamos todos a assistir, nesse ano, à irrupção extraordinária de novas realidades em Portugal. Ou apenas a destapá-las.
Foi o ano do julgamento do caso Melancia, do fax do aeroporto de Macau, e de Costa Freire e Zezé Beleza, nas campanhas do Ministério da Saúde, com tudo o que tal levantou sobre a moderna corrupção nas hierarquias dos poderes públicos. Foi o ano de Pedro Caldeira, capturado nos Estados Unidos, e as surpresas vindas do mundo podre da bolsa, da corretagem e do jet set do dinheiro. Foi ainda - 1993 - o ano do Padre Frederico, pároco e professor de Religião e Moral na Madeira, e a descoberta dos extraordinários silêncios da Igreja Católica, encobrindo o abuso sexual de menores.
O julgamento da "generala" revelou-se, no entanto, um caso especial na imprensa e na forma como os portugueses acompanharam as novidades. Uma ternura pícara, um sarcasmo suave que não escondia, visto à distância, algum interesse mórbido pelos aspectos sexuais e íntimos, como disse, há dias, ao JN, a advogada de então de Teresinha da Paixão Gomes. Noutra sala do Tribunal, lembrou Augusta Afonso, as sessões de Carlos Melancia esvaziavam porque os jornalistas corriam para ver Teresinha vestida de homem, andando como homem, falando como homem.
Notícias são notícias. A arguida era acusada de três crimes de burla, pedindo "avultadas somas" em dinheiro que não devolvia, utilizando identidades masculinas para o efeito, numa voz polida e educada, ao longo de quase duas décadas. Além de general, apresentara-se como "doutor" e funcionário superior da Embaixada dos Estados Unidos (ligado à CIA).
Creio, no entanto, que fui ligeiro ao escrever, num balanço jornalístico do PÚBLICO nesse ano: "Poucas vezes andaram os portugueses tão intrigados e divertidos como em Fevereiro de 1993. Foi o tempo de descobrir e digerir a estranha guerra de sexos que o general Tito comandou em pessoa contra Teresinha da Paixão Gomes. O oficial de carreira demonstrou um conhecimento exemplar da ciência da estratégia, pois Teresinha era o próprio Tito e ninguém o soube durante 17 longos anos."
Tal como os trocadilhos são perigosos para a linguagem, não nos devemos precipitar em conclusões levianas.
Quase miséria
Teresinha da Paixão Gomes foi, é quase certo, uma pessoa que sofreu muito. As circunstâncias da sua morte são tristes: doente, recusou acompanhar a sua actual companheira numas mini-férias, e o corpo foi encontrado em estado de decomposição, dias mais tarde, numa casa isolada da aldeia de Carambacha de Cima, Alenquer. Desde que foi condenada a três anos de prisão, com pena suspensa, pelas burlas, e abandonada pela companheira de então (tia da actual), Teresinha isolou-se e acabou a forrar o exterior da casa com chapas de zinco. Suspeita-se que vivia na quase miséria. A Polícia Judiciária afastou a hipótese de crime. Diz-se que um programa recente da TV, que a tentou entrevistar para um especial sobre os "maiores burlões" dos últimos anos, a levou a fechar-se ainda mais.
O psiquiatra e sexólogo Francisco Allen Gomes diz-me que o caso de Tito/Teresinha é uma situação rara: "Pode configurar uma dupla transposição do género. Do ponto de vista clínico, pode corresponder a duas situações: transexualidade ou travestismo. Dizia-se que não há mulheres travestis, que o travestismo é tipicamente masculino, mas sabe-se hoje que não é bem assim."
A ciência põe hipóteses e aprende com a experiência.
"Há casos de indivíduos que têm uma vida como homem e uma outra vida como mulher. Dantes associava-se sempre isto a um mecanismo de excitação sexual. Mas há também os que não têm qualquer motivação sexual. São os travestis de duplo papel."
Isto é, por exemplo, um homem que chega a casa e se veste de mulher para cozinhar, passar a ferro ou limpar muito bem a casa de banho. Nos Estados Unidos, actualmente, lembra Allen Gomes, "têm revistas, clubes, vão a cruzeiros, às vezes com as respectivas mulheres".
Mas a hipótese mais provável é que Teresinha se tratasse de um transexual que não chegou a fazer a transformação física. Só atingiu, por assim dizer, a fase anterior: uso de cintas e faixas apertadas no peito e nas ancas.
"Normalmente as transexuais têm muita dificuldade em aceitar o seu corpo. Isso leva-os a tentarem tirar as mamas e a obterem um falo. Aqui, o mistério é que ela não o fez e conseguiu desempenhar um papel fantasticamente."
Lembrei a sessão de tribunal em que Joaquina, a companheira de Tito desde 1975, enfermeira e co-arguida, jurou que nunca soubera de nada. Que só numa ocasião, ao entrar na casa de banho, vira que algo estava errado. Mas que o "marido" lhe assegurara que estava tudo bem.
Allen Gomes tem um caso mais detalhado, com pormenores inacreditáveis: "Tive uma cliente que durante oito anos viveu com uma mulher... dormiam na mesma cama e tinha sexo com ela. Usava um falo que ela própria fez e que usava sempre, e envolvia-o numa camisa de vénus. Mas nunca se despia completamente e a outra tinha um grande ciúme porque "ele" nunca lhe quis dar um filho!"
"Agora sou respeitada"
Teresinha escolheu a profissão mais masculina que se pode imaginar, creio: general. Contou, no julgamento, que tudo começou com uma brincadeira de Carnaval, em 1975, quando se vestiu de tenente-coronel, e as pessoas levaram a sério. Pouco depois, encomendou num alfaiate uma farda de general, com várias estrelas. Foi com ela a um casamento.
"Mas nos Estados Unidos, na Guerra da Secessão [séc. XIX], houve mulheres que fizeram a guerra toda como soldados-homens e ninguém percebeu!", recorda Allen Gomes.
O tempo deu, e dará, as respostas. As pessoais, as sociais e as médicas.
Teresinha disse, numa das sessões a que assisti, que já se vestia com roupa e aspecto masculino na Madeira, onde nasceu. A primeira vez foi em 1959. Insinuou a existência de um desgosto amoroso dela com um homem, mas, sobre isso, só falaria à porta fechada. Aos 16 anos fugiu da Madeira, os pais deram-na como morta, as autoridades inscreveram-na numa lista de desaparecidos. Só voltaram a encontrá-la nos anos 90, quando Tito, já acusado criminalmente de burla qualificada, sofreu a primeira das grandes humilhações da última fase da sua vida. Foi obrigado a despir-se todo para fotos e, afinal, era uma mulher de 60 anos. Enganara também os agentes da PJ. Tito era o nome do irmão dela, que morreu bebé.
Dizia que nunca pretendeu vigarizar ninguém. Que simplesmente perdera o controlo das dívidas. Ilibou completamente a sua companheira. Revelou-se, escrevi então (com ligeireza editorial, mais uma vez), um "oficial e cavalheiro".
"Não me sinto bem como general, sinto-me bem como homem", disse, nesse dia em que me olhou nos olhos por três segundos, na sala do tribunal. "Agora sou respeitada."
Para Allen Gomes, o caso é exemplar:
"No fundo, era um transexual que veio ao mundo ainda antes de "haver" transexualidade... antes de tempo. O primeiro a ser operado em todo o mundo foi em 1952, na Dinamarca. Um soldado americano, de origem dinamarquesa, que se chamava George e mudou para Georgina."
Outra vez soldados, generais, Guerra da Secessão... Penso em camuflagem, mais trocadilhos.
A "generala", conclui Allen Gomes, "assumiu o seu papel com os recursos que tinha na altura... e bem!"
No final do julgamento, Teresinha aceitou a pena e não pediu recurso. Prometeu que, nos anos seguintes, iria escrever a sua história. Se o fez, gostava de a ler. As autoridades informaram a agência Lusa,
no entanto, que não parece ter deixado documentos ou fotografias pessoais.