18/07/07

a propósito





















Há algum tempo atrás, com anos já contados, numa das conversas e divagações habituais ,
transformada em discussão quente, falava-se de alguém, elemento habitual deste recanto,
que em determinada altura teria tentado atirar-se de uma janela.
A questão pertinente e causadora de temperatura na reflexão, relacionava-se com a possibilidade do potencial suicidário prejudicar ou não de forma directa ou indirecta aqueles que poderiam estar presentes no momento do óbito.

Existia quem advogasse que as consequências atingiriam uns e outros, numa ordem de grandeza proporcional à proximidade ou geometria do impacto, como se fossem bolas de uma mesa de bilhar depois de uma tacada irracional e sofreriam de terríveis danos colaterais tal como as vítimas de um bombardeamento cego...
No resfriar, curar e lamber das feridas falou-se do livro "O suicidado da sociedade" de Antonim Artaud. Transpõe-se o início da obra:
"Pode falar-se da boa saúde mental de Van Gogh que em toda a vida só assou uma das mãos e quanto aos resto não fez mais do que cortar, uma vez, a orelha esquerda
num mundo que todos os dias come vagina cozida com molho verde, ou sexo de recém-nascido flagelado e
enraivado
mal o apanham à saída do sexo materno.
E não se trata de imagem, isto, mas de um facto repetido e cultivado em abundância quotidianamente pela terra inteira.
Por isso, mais delirante nos pareça tal afirmação, a vida presente se mantém na velha atmosfera do estupro, anarquia, desordem, delírio, desregramento, loucura crónica, inércia burguesa, anomalia psíquica ( porque não foi o homem mas o mundo que se transformou num anormal),
de assumida desonestidade e de hipocrisia insigne, porcalhão desprezo por quanto exibe raça,

reivindicação de uma ordem toda baseada no cumprimento de uma injustiça primitiva,
de crime organizado, enfim.
Isto corre mal porque a consciência doente tem interesse
em não sair da sua doença nesta hora capital.
Por isso a sociedade degradada inventou a psiquiatria para se defender das investigações de certa lucidez superior cujas faculdades de adivinhação incomodam."1

1 - Antonim Artaud
In O suicidado da sociedade
© 1983, Produção & etc, série K



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