27/06/07

A sesta resistente

"A sesta para resistir? Está a brincar?Mas para quê, contra quem ?Contra o "tempo mundial" esse resultado da globalização da economia que se infiltra por todo o lado, e sem cerimónia se apresenta como uma evidência, como algo natural, incontestável. Porém, é a organização económica - onde tudo é contabilizado, quantificado, reciclado - o que nos priva do uso deste bem tão precioso: o tempo. Ou mais precisamente, a quotidianidade. É claro que se encontrará sempre um utente rabugento a resmungar porque o banco está fechado no momento em que ele está livre, mas daqui para a frente os balcões automáticos estão abertos vinte e quatro horas por dia! A sesta escolhida acarreta uma reorganização completa dos horários dos serviços e das empresas. Não se trata de fechar das tantas ás tantas, mas de facilitar aquilo que Pierre Sansot nomeia "o tempo flutuante", satisfazendo, tendo em conta a diversidade dos comportamentos individuais, toda a gente sem lesar ninguém. Recusar tomar em consideração este "tempo flutuante" consiste em fechar os olhos perante práticas "inconfessáveis" do género: penduro um dístico a dizer "volto já" e demoro a retomar o meu posto; fecho arbitrariamente o balcão, " momentaneamente"; dormito em pé e estou ausente, mesmo que fisicamente esteja ali."

"Da mesma maneira que o nosso sono conhece várias fases, a nossa actividade é cíclica. Ter consciência disso está bem, fazer o que for preciso para valorizar as suas manifestações é um "trabalho", o trabalho de cada um sobre si próprio, para entrar em relação com o outro. Sesteiras e sesteiros, sestem!"

Thierry Paquot

in A Arte da Sesta © 2002, Campo das Letras

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